ALBA promove audiência para debater os “Sons da Bahia”


A Assembleia Legislativa da Bahia foi palco de um importante debate para a cultura baiana. A audiência pública “Sons da Bahia”, presidida pela deputada Olivia Santana (PC do B), reuniu mestres, músicos, gestores políticos e sociedade civil para discutir a criação de políticas públicas que garantam a manutenção financeira e a estabilidade da Orquestra Afrosinfônica e da Orkestra Rumpilezz, duas das mais importantes formações musicais de matriz afro-brasileira do país.

A disparidade de investimentos entre as orquestras de matriz europeia e as de tradição africana foi o fio condutor do encontro. Olivia Santana ressaltou a urgência de um modelo perene de apoio, nos moldes do que já ocorre com outras grandes formações no estado.

“Não queremos nem mais nem menos, queremos política pública cultural consistente que possa amparar essas duas orquestras”, defendeu a parlamentar, lembrando a batalha histórica travada pelo maestro Letieres Leite.

O maestro Ubiratan Marques, líder da Orquestra Afrosinfônica, lembrou que a batalha por valorização e estrutura dura quase duas décadas. “A música brasileira só existe por conta dos terreiros”, cravou, pontuando a dificuldade de fazer música genuinamente nacional.

Na mesma linha, Emílio Souza, representante da Orkestra Rumpilezz, destacou o orgulho de levar a música preta aos palcos, mas lamentou a dura realidade dos bastidores. “Muitas pessoas não sabem da luta que a gente vem travando para sobreviver”.

O impacto social desses grupos e a omissão estrutural pautaram discursos na mesa de honra. O cantor Lazzo Matumbi fez uma fala contundente sobre como o Estado enxerga a cultura preta. Para ele, reduzir essas orquestras a mero entretenimento é apagar a história e a função educacional dos grupos. “Isso é racismo e precisamos meter o dedo na ferida”, pontuou Lazzo.
Maria Marighella, gestora cultural, reforçou que o debate financeiro é, no fundo, uma disputa de identidade e poder. “Quem tem o direito de narrar o Brasil? A cultura é uma agenda de soberania”, declarou. A ialorixá Mãe Marcia de Ogum resumiu o sentimento coletivo ao conectar economia e ancestralidade. “Investir em tradição é investir em economia criativa. É reverenciar a ancestralidade”.

Houve também um aprofundamento técnico sobre o modelo jurídico de apoio. Sara Prado, representante da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), alertou que o termo “publicização” pode não ser o caminho ideal para essas formações específicas. Segundo ela, se o Estado “publicizar” as orquestras sob moldes tradicionais, elas poderiam perder sua autonomia gerencial privada. O foco, argumentou, deve ser ampliar os mecanismos diretos de fomento e disputar o orçamento público.

O deputado Robinson Almeida (PT) concordou, destacando a necessidade de “colocar a cultura popular no orçamento” e comprometendo-se a destinar emendas parlamentares para a manutenção das orquestras. “Desenvolvimento é uma escolha política”, arrematou o vereador Silvio Humberto.

ENCAMINHAMENTOS

Ao final da sessão, os participantes firmaram um pacto para transformar as demandas em ações concretas do Estado. Foram definidos como compromisso uma articulação intersetorial entre Secult, Saeb, Sefaz e Casa Civil para garantir um orçamento digno para a permanência das orquestras; a defesa e ampliação estrutural do Fundo Setorial da Música; e o diálogo com a Casa Civil para assegurar que parte dos recursos do Fundo de Combate à Pobreza (e das políticas de combate ao racismo) seja destinada ao financiamento contínuo das duas formações.
Além das pessoas já citadas, também participaram da audiência a deputada Jusmari Oliveira (PSD), a secretária de promoção da igualdade, Ângela Guimarães, o cantor e compositor Gerônimo, o cantor e compositor Roberto Mendes, o músico Roberto Barreto, Carlos Brasileiro representando a Seades, e Paulo Alcoforado, da Ancine.

Reportagem: Joana Vitória
Edição: Franciel Cruz



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